05/02/2015

A segunda viagem


Quando somos mães pela primeira vez é tudo uma excitação, tudo uma loucura, tudo uma perdição e parece que o sentimento abrange todos os que nos rodeiam.
Os toques na barriga, as meias de lã, as prendas aqui e ali, a ansiedade para saber como vai a gestação da mamã. 
Na minha primeira gravidez, senti que a minha filha pertencia mais aos outros do que a mim e ao meu marido.
Nos primeiros dias estava verdadeiramente apavorada quando descobri, tinha acabado de ser promovida nem fazia duas semanas e o meu receio era que o meu esforço profissional para alcançar aquela meta fosse deitado por terra.
Nunca me esqueci como comuniquei a noticia, numa das copas do escritório enquanto fazia uma chávena de chá.
A bebé, transformou-se na bebé do escritório, todos deitavam a sorte para adivinhar se ia ser rapaz ou rapariga, a atenção, os mimos e os toques na barriga para estranheza do chefão meio holandês meio alemão que não compreendia a afabilidade portuguesa nestas questões de maternidade.
A família estava toda excitada, pois era a primeira rapariga após três homens e um neto, finalmente vinha a tão desejada menina, do filho que pensavam que ia ser a menina da família.
Quando ela nasceu, foi a loucura e ao sétimo dia não se descansou, abriu-se uma garrafa de James Martin´s com trinta anos para celebrar.
Vieram quilos de roupa, sempre com os meus pedidos para não me entupirem a menina só de cor-de-rosa. Com tantas cores na paleta, porquê só cor-de-rosa? Nunca percebi. 
Tudo o que era para a bebé era do bom e do melhor ( até de designers famosos) e nada lhe falta até hoje.
 Quando descobri que estava grávida da segunda vez, foi uma enorme alegria, pelo menos para mim e para o meu marido. A descoberta foi um pouco semelhante à da primeira vez, após doenças estranhas, crises de enxaquecas e balões de analgésico recebidos por intravenosa na CUF.
A altura era totalmente diferente da primeira gravidez, muita coisa mudou na nossa vida, mas não foi por isso que eu me senti triste, em pânico ou desapontada.
Eu fiquei estática pois nunca quis que a minha princesa fosse filha única e se na primeira vez queria guardar e ir contando aos poucos, desta vez apeteceu-me contar a toda a gente de imediato.
As reacções foram bastante diferentes, desde os amarelos "Parabéns", de comentários infelizes, de ouvir o sermão que existem bastantes contraceptivos no mercado e em último caso clinicas que "tratavam do assunto" com descrição.Notem que uma vida é por muitos considerada um "assunto" que se pode terminar assim como algo absolutamente normal. Nem vou colocar aqui a observação que fizeram relativamente a esta gravidez e ao meu matrimónio, porque é estúpida demais para escrever.
Não recebi a atenção,os mimos ou os toques na barriga (quer dizer, alguns toques na barriga) e não houveram prendas no Natal para a menina que está no meu ventre, porque segundo toda a gente, ela já tem tudo da irmã.
Isso até é verdade, porque vou conseguir poupar em algumas coisas, mas esta menina que está para nascer não é uma versão reciclada da irmã mais velha e porque não pode ter as suas coisas próprias se ela não vai partilhar o mesmo nome próprio e apenas receber da irmã tudo aquilo que lhe deram?
Porque é que as pessoas só fazem da primeira gravidez (apenas) uma festa como se não houvesse amanhã? Então as outras crianças não são motivo de alegria?
Porque é que só os primeiros filhos têm o direito a "baby-showers", a mimo, a roupas com etiquetas, ao topo de tudo o que há de melhor?
Se depender de mim, terá tudo por igual, o mesmo mimo, a mesma atenção, dedicação e tudo o que lhe puder dar pois é igualmente abençoada.
Se eu me sinto assim na segunda gravidez, como se sentem as mães que têm três, quatro, cinco, seis ou mais filhos?



1 comentário:

  1. Grande verdade!!! ♥
    E venha a princesa que terá todos os mimos tal como a princesa maior!! Amor, carinho e muito mimo não vão faltar ♡★☆♥

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