15/02/2014

Irmão de Caridade



Eu tenho um irmão de Caridade e apesar de partilharmos a cor de olhos, não é irmão de sangue nem nasceu do ventre de minha mãe.

O meu irmão de Caridade, conhece o Reino de Hades, já desceu ao Inferno de Dante e condena a sua alma em terra plana, embrulhado em mantas salazaristas, tentando exorcizar espectros que o atormentam e lhe trituram o âmago.

O meu irmão de Caridade, brindou-me com Tácito, Trakl, Rilke, Frost, Schmitz, Aude, Thomas, Arnold, Hörderlin, Kavafis e intoxicada, aceitei o meu Irmão como digno escanção e bebi-os de joelhos como um vinho de sangue topázio, acarinhado pelo Sol que não existe no seu mundo.
O meu irmão fez do email uma taça de Cristal para brindar comigo finos paladares em textos que fazem tremer o comum mortal.
O meu irmão só conhece a Lua, que banha em breu e prata a sua viagem interminável até Ithaka  e seu destino devia ser cousa própria de cada um - pessoal e intransmissível - mas o meu Irmão de Caridade devia saber que ninguém é destino de ninguém.
Eu não conheço o meu irmão de Caridade, apenas sei o seu nome, somente o reconheço num poema de Rimbaud escrito por alguém com dezassete anos de idade no fim de vida.

Desculpa-me meu Irmão, por te transformar em Prometeu em horas impróprias.
Obrigada irmão por ser a tua irmã de Caridade.
(O texto foi escrito por Laetitia Estrella, autora deste blogue, pelo que qualquer reprodução do mesmo requer uma autorização prévia por parte da autora. O uso indevido deste ou outro textos poderá dar origem a processo judicial.)

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