16/09/2012

Parabéns Pai!

Se o meu pai fosse vivo, faria hoje cem anos. Leram bem... 100 anos!
Quando eu nasci a minha mãe tinha 42 anos e o meu pai 68 anos e quando ele faleceu eu tinha apenas 6 anos.
Ainda me lembro como se fosse ontem, quando a minha mãe me coloca um Yogi de Morango na mão, vestida com o meu macacão em tons de rosa-choque com o intuito de passar uns dias com a vizinha de cima que tinha gata chamada "Ketchup" má como as cobras.
Senti o céu desabar na minha pequena cabeça quando a minha mãe me deu a notícia, sem entender o porquê de o meu pai ter morrido e saber que o céu onde ele estava era longe demais para eu alcançar.
A seguir a este dia, pouco ou nada me recordo até ir para a primeira classe. 
Dizem que o cérebro "apaga" ou camufla situações ou dias de trauma, possivelmente até é verdade.
Sempre fiz imensas perguntas à minha mãe sobre o meu pai, perguntas que nunca me soube responder pois sempre me disse que sendo bastante mais nova que o meu pai, nunca lhe quis fazer grandes perguntas por puro respeito.
No ano passado, a minha mãe deu-me a melhor prenda de anos que alguma vez podia ter pedido e não foi um vestido, um perfume, um "gadget" electrónico e sim as respostas que eu sempre desejei ter às perguntas de criança à qual foi arrancada a figura amada.
Abriu aquela mala de viagem de padrão escocês avermelhado e que não era aberta há mais de 30 anos.
Os papéis pestanejaram  e bocejaram ao serem acordados pela luz do entardecer.
A mala continha fotografias, cartas, diplomas da função pública, cartões de sociedades recreativas e cartões das faculdades.
Antes de morrer o meu pai pediu-me para tirar o curso de Direito e nunca entendi o motivo de ele me fazer um pedido destes. O Direito sempre me assombrou, por gosto e pelo pedido do meu pai que quero cumprir mais cedo ou mais tarde.
Ao vasculhar a mala, encontrei o cartão de aluno da Faculdade de Direito de Lisboa do ano de 1934 e correram-me as lágrimas pela cara, pois este cartão respondia mais uma pergunta que me assombrava e à qual nunca tive resposta.
O meu pai foi professor e director de uma escola em Angola, foi amigo de um Dr. José Pinheiro da Silva (Secretário da Educação) que não sei se ainda é vivo, andou com o João de Deus Pinheiro ao colo e deixou tudo em Angola quando a revolução rebentou. 
Estava no hospital para uma avaliação médica quando teve um AVC e lá em Angola ficaram casa, carro, empregados e tantas coisas como outros milhares de portugueses deixaram.
A minha mãe cuidou dele, deu-lhe três filhos e quando ele fechou os olhos não quis mais ninguém em casa.
O meu pai fez e faz-me muita falta, o Dia do Pai é algo doloroso para mim mas aos poucos e olhando para o amor que Mr. Bu nutre pela nossa filha e o meu sogro sendo um "segundo pai" para mim vou ultrapassando esta dor.
Parabéns Pai, onde quer que estejas tens uma filha que te ama.

4 comentários:

  1. Que história bonita. Parabéns ao pai pelo seu 100º aniversário.

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  2. Até fiquei emocionada. :')
    Interessante essa mala que o teu pai tinha cheio de coisas do passado dele. Se calhar já era com o intuito de o dar a conhecer à tua mãe e aos filhos.

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  3. parece que hoje é um dia nostálgico para as duas...Onde quer que o teu pai esteja de certeza que te está a acompanhar :):)


    Beijinho*

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